sábado, 17 de outubro de 2015

Arriscar-se para previnir

::Bel Cesar::




Certa vez, escutei um mestre budista dizer: "Existem duas formas de sair do sofrimento: uma via inteligência, outra via sofrimento. Em geral, escolhemos a segunda, porque só quando o sofrimento se torna insuportável é que nos decidimos a buscar soluções que nos ajudem a superá-lo".

Assim como a medicina ocidental está mais voltada para tratar das doenças do que para preveni-las, estamos mais condicionados a buscar formas de superar o sofrimento emocional só quando sentimos a dor de termos ultrapassado nossos limites. Ou seja, será que é preciso tocar o limite de nossa dor para mobilizarmos as forças para sair dele? Temos que sofrer para almejar algo melhor para nossa vida?

Infelizmente, muitas vezes preferimos nos acomodar a nos arriscar. Assim, perdemos as janelas de oportunidade que a vida nos oferece. Mais tarde, nos arrependemos quando sentimos as consequências de termos passado do ponto. Aí, temos que fazer um esforço extra para nos darmos uma nova chance.

É preciso ter força física, mental e emocional para arriscar-se. Em nosso corpo temos dois hormônios responsáveis por nos gerar formas distintas de coragem. O cortisol, que nos dá a força de defesa, e o DHEA, que nos ajuda a ter a coragem para nos aventurarmos diante dos desafios.

O psiquiatra Dr. Sergio Klepacz nos esclarece que quando somos jovens, os níveis de DHEA costumam ser bem maiores que os do cortisol. Quando envelhecemos, em geral, acontece o contrário, nosso DHEA cai e o cortisol sobe. Isso pode explicar a coragem e o destemor do jovem e a resignação e o acuamento do idoso.
Por que não cuidamos do corpo para aproveitar a maturidade da vida adulta enquanto temos força e coragem?

É muito interessante saber que o DHEA começa a ser secretado pela suprarenal entre os oito e dez anos de idade, atingindo seu pico entre os vinte e trinta anos. Aliás, a fase da vida mais apropriada para a reprodução. A partir de então, o DHEA começa a decrescer atingindo, aos 80 anos, 20% do seu valor máximo.
O problema é que diante do estresse da vida diária, o cortisol também tende a subir. Por isso, muitas vezes sentimos que gastamos mais energia nos defendendo da vida do que sendo criativos.

Conforme envelhecemos, deixamos cada vez mais de correr riscos desnecessários, pois estamos voltados a encontrar prazer em ambientes e relacionamentos mais seguros, onde podemos finalmente relaxar, descansar.

A princípio não há nada de errado em encontrar uma zona de conforto segura e agradável. Mas, o ponto é que ela só existe por tempo limitado. Se não somos nós a buscarmos novos desafios, eles chegam até nós...

O conforto é bom, mas não podemos ficar viciados nele, pois a sua realidade é instável. O mestre budista Trungpa Rinpoche alertava em seus ensinamentos sobre o perigo de usarmos o conforto para escapar da nossa inquietude ao invés de conhecê-la. Ele ressaltava que verdadeira ausência do medo não é a sua supressão, "mas, sim, o ato de ir além dele, superá-lo". Para tanto, temos que conhecer nossos desconfortos, como medo, ansiedade, nervosismo, preocupação e inquietação. Pois eles revelam tanto nossas falsas percepções como nos dão a possibilidade de não segui-las.

Na realidade, mesmo quando a vida está tranquila, temos que mobilizar nossa coragem interior. Mas, quando estamos diante de dilemas maiores torna-se imprescindível ter a coragem de se arriscar. Assim como disse certa vez Al Gore: "Não arriscar nada é arriscar tudo".

Afinal, por que não se acomodar? Primeiro, porque não solucionamos o desconforto do sofrimento; segundo, porque de um modo ou de outro temos que seguir em frente... Então, é melhor não acumular frustrações, mas, sim, superá-las!


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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Lei da Expectativa

::Claudia Signoretti::





Voce já ouviu falar em lei da expectativa? Bem, esta lei diz que tudo o que você espera, com confiança, torna-se sua profecia auto-realizável, ou seja, o que e quanto você espera para si é aonde você vai levar a si próprio a realizar. Afinal sempre buscamos responder as expectativas que os outros têm de nós ou a expectativa que geramos de nós mesmo.

Sendo assim na lei da expectativa podemos dizer que há quatro fontes que tem impacto em nossas vidas, sendo a primeira fonte nossos pais. Quantos de nós não buscamos superar as expectativas que nossos pais colocaram em nós? Sejam elas boas ou ruins. Aquele pai que sempre incentiva seu filho a ser estudioso, a ter amigos, a ter uma vida social saudável gera boas expectativas em seu filho e este tenta responder sendo uma pessoa estudiosa, sociável e responsável. Já o pai que fala que o filho “nasceu burro mesmo”, “que esse não vai ser nada na vida” gera uma expectativa de derrotado em seu filho e este responderá sendo um derrotado. Mesmo que boas oportunidades surjam, ele inconscientemente irá boicotar tais oportunidades, afinal ele busca responder a expectativa de seu pai, que foi que ele não serve para nada. Quais as expectativas que seu pai gerou em você? Quais as expectativas que você está gerando em seus filhos?

A segunda fonte é a expectativa de seus superiores, podendo ser desde cedo os professores indo até os chefes. Você se lembra de algum professor que era muito rigoroso, se achava o ser mais inteligente do planeta, que gostava de tirar sarro de seus alunos e falava que eles nunca iam crescer na vida? A maioria da sala tirava notas baixas com ele. Já o outro professor mais alto-astral que incentivava seus alunos, tinha paciência de repetir várias vezes para que seus alunos aprendessem a matérias e que a sala toda tirava notas boas com ele? Os alunos eram os mesmos, o que mudavam eram as notas e claro o professor! O porquê isso ocorre? Simples, o primeiro professor tinha expectativa de alunos derrotados o outro tinha expectativas de alunos que podiam aprender e ir bem na escola. Porque alguns tiravam notas ruins e outros não? Pois a grande maioria respondia as expectativas do professor, outros respondiam a própria expectativa de provarem seu valor o que implica a expectativa geradas por seus pais, o de bom aluno.

A terceira fonte da lei da expectativa é a expectativa que você tem de seus filhos, seu cônjuge, empregados ou equipe de trabalho. Quanto mais importante você for na vida dessas pessoas mais impacto você terá sobre elas e maior será o desempenho que você buscará de si mesmo para suprir as expectativas que estas pessoas geram em você. Podemos perceber vários casais que estão em constantes conflitos ao qual a mulher fala: “ele não me entende”. “ele é relaxado”, “ele é estúpido” e os homens dizem “ela gasta demais”, “ela não quer trabalhar”, “não sabe cuidar dos filhos”, “fala o tempo todo”. Pois é, olha as expectativas que você está gerando em seu cônjuge, será que criticando, gerando expectativas ruins algo pode mudar para melhor?
Quanto às equipes de trabalho, caso você que as coordene, tem superiores que dizem “se eu sair daqui ninguém faz nada”, “tudo sobra para mim, todo mundo aqui é incompetente”, “essa gente para aprender é só abrindo a cabeça o jogando coisa dentro”, pois bem, novamente as más expectativas.

E a quarta e ultima fonte são as expectativas que você tem de si mesmo. Se você analisar o contexto acima, assim como você pode influenciar outras pessoas de acordo com as expectativas que você gerou nelas (lembre-se que quanto maior a importância você tem pra essas pessoas mais elas aderem as suas expectativas) você também mesmo sendo expectativa de outras pessoas (pais, cônjuges, chefes) você também pode gerar a sua própria expectativa.

Afinal você é o comandante de sua vida. Não capte as más expectativas que foram geradas para sua pessoa, forme suas próprias e boas expectativas. Se alguma pedra aparecer no caminho, alguma dificuldade pense “tudo vem para o bem”, “tudo tem seu lado bom”, se o caminho parece estar obscuro pense “tudo no final dá certo” ou “se ainda não deu certo não chegou ao fim”. Isto ajudará você a continuar seu percurso mantendo boas e otimistas expectativas. Fácil? Depende, quem já vem exercitando pode ser, quem nunca tentou parece impossível. Mas daí voltamos, se lhe parece impossível será que não está no momento de mudar suas expectativas em relação a si próprio?

Somente nós podemos mudar a nós mesmos, somente nós temos este poder, afinal a única coisa que podemos controlar é a nossa própria vida. Desta forma devemos controlá-la de uma maneira a nos melhorar como pessoas para que possamos atingir uma vida feliz e plena. Aonde você chegou até agora? Essa é a sua expectativa? Onde você deseja chegar?



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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Receptividade

:: Elisabeth Cavalcante ::




Ser receptivo é a qualidade que nos torna aptos a receber todas as dádivas que a vida quiser nos enviar.

Passamos muito de nosso tempo reclamando por aquilo que nos falta ou que julgamos não estar recebendo. Porém, para que possamos alcançar a realização de nossos desejos mais profundos, precisamos estar verdadeiramente abertos e receptivos àquilo que buscamos.

Um exemplo comum é o da relação amorosa. A maioria de nós se queixa de que não consegue encontrar o amor que tanto procura. Entretanto, se fizerem uma análise profunda de suas atitudes, muitas pessoas chegarão à conclusão de que não estão de fato abertas para um novo relacionamento. Esperam por ele cheias de medo e resistências, temendo que se repitam as decepções já sofridas.

Receptividade possui um sentido muito amplo e profundo. Requer que nos libertemos de todas as crenças, amarras, medos, resistências, ilusões e pré-julgamentos, e que nos mantenhamos abertos de fato, ao novo, ao inesperado, ao inusitado.

Saber receber é algo tão importante quanto possuir a capacidade de doar-se. Muitos se doam sem reservas, mas possuem uma incapacidade de receber, por considerarem-se pouco merecedores de atenção e cuidado. Uma baixa auto-estima e uma autoconfiança frágil estão geralmente por trás desta atitude.

Há ainda os que preferem doar-se infinitamente para, desse modo, garantir o afeto e a permanência do outro ao seu lado, ainda que este se mostre egoísta e incapaz de retribuir o amor que recebe.

A energia da receptividade está relacionada à energia yin, o nosso lado feminino, intuitivo e cooperativo. Ela é fundamental para que possamos receber prazerosamente aquilo que a vida nos envia, e para que sejamos capazes de gerar novos frutos com as sementes que são colocadas a cada dia em nosso caminho. Mesmo que não seja exatamente o que pedimos, ou que não venha da forma como pedimos.

Se nos mantivermos receptivos, ao invés de amargos e ressentidos por aquilo que nos falta, estaremos ampliando as possibilidades de alcançar o que tanto buscamos. A vida sempre premia generosamente aquele que se abre sem qualquer reserva para receber suas dádivas.


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quinta-feira, 23 de abril de 2015

O que é de fato mostrar a cara?

::Angelina Garcia::







A mãe fazia questão de dar às duas meninas o mesmo trato, o mesmo afeto e, de vez em quando, as mesmas broncas. As roupas se diferenciavam em pequenos detalhes: a cor, a estampa, a abertura nas costas, ou de lado; as manguinhas retas, ou japonesas; o decote em V, ou redondo. A cor para Gabriela variava em tons azuis para combinar com seus olhos. Até nas presilhas que viviam escorregando dos cabelos muito lisos, quase louros.

Qualquer cor combinava com o castanho dos olhos e dos cabelos, mais para o crespo, de Vírgínia. Caprichosamente vestidas, os pais se sentiam orgulhosos em exibi-las nos passeios, festas, viagens. Nem todo esse cuidado conseguiu poupar Virgínia dos encantos de Gabriela. Qualquer estranho que se aproximasse, envolvido pela graça da garota, só tinha olhos para ela:

Que menina linda!

Cresceu usando a força de sua beleza, enquanto Virgínia, apesar de menina bonita, foi-se apagando na exuberância da irmã, a quem aprendeu admirar através dos olhares dos outros. Gabriela, muito segura de si, deixava claras as suas vontades, que Virgínia, um pouco mais velha, procurava atender. Mais tarde, abria mão de qualquer compromisso para servi-la, fosse num trabalho de escola, ou apenas para lhe fazer companhia, quando aquela se desentendia com o namorado.

Se não tivesse esta irmã, talvez Virgínia encontrasse alguém, ou algo, atrás do que se esconder vida afora, como fazem muitas pessoas com outras histórias. Por algum motivo deixam de protagonizar a própria vida e passam a se satisfazer com a vida alheia. Algumas costumam se apresentar ao mundo como filha de fulano, namorada de sicrano. Em qualquer conversa lhes dão destaque. - Se meu pai estivesse aqui, ele diria tal coisa. Meu namorado é quem gosta disso, ou daquilo. Ninguém fica sabendo o que elas diriam, ou do que gostam, porque a figura do outro toma o seu lugar.

Outras se servem de citações - eficazes para fortalecer uma opinião -; mas recorrer constantemente à fala de autores como verdade absoluta, sem dialogar com eles, é mais uma forma de evitar exposição. Há, também, os que se escondem atrás de rótulos: os que nunca contestam, porque são compreensivos; os que não se arriscam por medo de errar, porque são perfeccionistas; os que estão sempre disponíveis, porque são prestativos.

Sem falar daquele que não tem tempo para atender a si mesmo, porque alguém precisa dele: uma mãe que não pode ficar sozinha, um filho bem crescido, que não se tornou independente. Havemos de lembrar, ainda, dos que se escondem atrás de um trabalho interminável, ou do muito que trabalham; além daqueles que usam como escudo uma religião, uma doença real ou imaginária, mesmo que esta não os tenha tornado incapazes. Tantos outros se prendem a uma idéia que pretendem realizar no futuro, para a qual nunca deram o primeiro passo. E por aí vai.

Admirar alguém a ponto de tomá-lo como exemplo, alegrar-se com as conquistas de outros, sacrificar-se em nome da solidariedade, são atitudes saudáveis, desde que não embotem nossa forma mais verdadeira de estar no mundo. Se circunstâncias de vida, convenções, ou a imagem que ajudamos a criar de nós mesmos, têm nos servido como álibi para nos distanciar da nossa plenitude, está na hora de revermos nosso lugar no mundo. Não será fácil, leva tempo, exige rompimentos, especialmente consigo mesmo, mas há uma força, lá no fundo, esperando ser resgatada. Valerá a pena.

domingo, 1 de março de 2015

5 Razões pelas quais a maioria das pessoas nunca descobre seu propósito

::Por Nando Pereira::






O significado de propósito e sentido de vida aqui está nos moldes dessa afirmação do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard mas também lembra, talvez ainda mais, a máxima do clássico indiano Bhagavad Gita (cap III, v.35), que diz que “Mais vale cumprir o próprio dharma, ainda que de forma imperfeita, do que cumprir de maneira perfeita o dever de outrem”. A psicóloga Shelley Prevost, terapeuta do Lamp Post Group, listou cinco razões pelas quais “nos perdemos” no caminho e entramos nessa crise de não enxergar mais sentido ou propósito.

A maior parte do texto está traduzido abaixo. Não é intenção apresentar a lista da Shelley como “a” lista de razões para isto ou aquilo, mas é uma visão interessante que pode adicionar aos passos do nosso (verdadeiro) caminho. Segundo o sábio indiano Sri Ramana Maharshi, o que nos faz encontrarmos nosso próprio caminho e sentido é apenas uma coisa: investigarmos profunda e verdadeiramente quem somos.

Eis a lista.

1. Você vive de fora pra dentro e não de dentro pra fora.

Esse é o primeiro e o principal de todos eles. Os outros praticamente decorrem desse. Aqui está o conceito de Matrix, do filme de 1999. “Quem olha pra fora, sonha; quem olha pra dentro, acorda”, já disse Carl G. Jung.
Diz a Shelley Prevost no seu artigo:

“Desde a infância as pessoas são ensinadas a procurar outras pessoas para se guiarem. As normas sociais são uma parte importante da infância – você imagina como deve agir em relação aos outros — mas o problema começa quando você estende esse processo e inclui algo tão pessoal quanto o propósito da sua vida. Algumas pessoas tem nossa confiança e a capacidade de nos ajudar a encontrar nosso real propósito único. Se você é uma dessas pessoas que têm essas companhias, você tem sorte! Mas a maioria das pessoas, mesmo as bem intencionadas, escolhem nos colocar dentro de compartimentos que fazem mais sentido pra elas. Para ganhar a aprovação delas, você se dispõe a entrar dentro do compartimento. Para manter a aprovação delas, você aprende a negar seguidamente quem você é. Em situações demais você vive num roteiro de outra pessoa”. (Shelley Prevost)

2. Você procura uma carreira antes de ouvir seu chamado.

Esse na verdade é uma consequência do primeiro. No caso do propósito de vida, essa é a pior (consequência). Isso já foi muito bem tratado num vídeo do psiquiatra chileno Claudio Naranjo, onde ele diz que “É normal não encontrar sentido na vida quando se está muito condicionado pelo mundo” (22/09/2011). Já com 15, 16 ou 17 anos você já está sofrendo toda a pressão dos pais, amigos e da sociedade inteira por uma carreira definida e que, de preferência, dê um longo e financeiramente estável futuro. Como diz o filósofo zen-budista Alan Watts (1915-1973) em um outro vídeo, “E se o dinheiro não fosse a finalidade?” (17/01/2013).

Diz a Shelley no artigo dela:

“Nossa sociedade reduziu o sucesso a uma lista de itens a serem preenchidos: formar-se no colégio, conseguir um(a) companheiro(a), ter filhos, sossegar num caminho profissional bem definido e ficar ali até que os cheques da aposentadoria comecem a chegar. Esse caminho bem costurado coloca as pessoas na direção do conformismo, não do propósito. Estamos tão ocupados evitando medos auto-impostos de não sermos suficientemente (preencha aqui alguma qualidade) – espertos o suficiente, criativos o suficiente, bonitos o suficiente – que raramente paramos e nos perguntamos “Estou feliz e satisfeito? E se não, o que eu deveria mudar?”

Encontrar seu propósito tem a ver com ouvir essa vontade interior. No livro “Deixe Sua Vida Falar” (Let Your Life Speak), Parker Palmer diz que deveríamos deixar nossa vida falar a nós, e não dizer à vida o que vamos fazer com ela. Um chamado é apaixonado e compulsivo. Começa com uma curiosidade (“Eu gostaria de tentar isso”) e então se transforma num mandato que você simplesmente não pode mudar. Um chamado não é um caminho fácil, e é por isso que a maioria de nós nunca o conhece. Tememos o esforço, a idiotice, o risco e o desconhecido. Então escolhemos uma carreira porque preenche os itens que fomos convencidos a preencher.” (Shelley Prevost)

3. Você odeia o silêncio.

Bom, não conheço muitas pessoas que realmente odeiam o silêncio, mas conheço muitas que “não suportam”. A justificativa geralmente é que o silêncio ou é angustiante ou uma perda de tempo. Aqui não há muita discussão, pois apenas no silêncio de si mesmo é que se descobre a essência da vida, e por mais subjetivo e desconhecido que isso possa parecer para um novato no mundo do silêncio, se não houver isso, não há muito o que fazer a respeito do aprofundamento em si mesmo. Apesar de algumas pessoas parecerem irem bem em suas carreiras sem silêncio, se você prestar atenção vai perceber que muitas delas cultivam o silêncio e os longos momentos contemplativos pessoais com bastante frequência, à sua maneira. A experiência de estar sentindo seu próprio propósito é calmante e satisfatória, inclui e se deleita no silêncio, enquanto que a experiência (ainda que externamente bem sucedida) de estar fora do seu caminho traz angústia e inquietação, coisa que o silêncio acentua e que, por isso, é rejeitada.

No texto da Shilley:

“Vivemos numa sociedade que não valoriza o silêncio. Valoriza a ação.
Mas viver sem silêncio é perigoso. Sem ele, você acaba acreditando que seu ego – e tudo que ele quer – é seu propósito. Se você imaginar bem esse cenário, sabe que ele não termina bem. Viva uma vida onde o Ego está no comando e você se encontrará o esgotamento – e uma questão esgotante: “Eu tenho uma ótima vida. Porque não estou satisfeito?”. O silêncio abafa o barulho e cria um espaço para a autenticidade aparecer. Em silêncio, você pode se perguntar como sua vida ou seu trabalho realmente está indo e pausar para esperar a resposta. Em silêncio, você dá tempo para que as informações da sua vida convirjam em algumas lições. Geralmente, entretanto, antes que as lições tenham tempo para penetrar você já foi para a próxima distração.” (Shelley Prevost)

4. Você não gosta do lado sombrio de si mesmo.

A não ser que você tenha nascido iluminado, o que neste caso não estaria lendo esse blog (rs), as chances de você não gostar ou não ter gostado da sua sombra são de 100%. O trabalho de conhecer e aceitar e crescer com o próprio lado sombrio é geralmente uma consequência do trabalho esmerado e profundo sobre si mesmo, seja em terapia, em meditação, em outras práticas, ou tudo isso junto. Aqui, de novo, aparece nossa cultura que não vê nenhum valor em não rejeitar ou em aceitar algo “ruim”, “negativo”, traços de fraqueza ou maldade ou escuridão. É a sombra, como definiu Carl G Jung.

“A sombra é o lado da sua personalidade que você não quer que os outros vejam. Representa suas deficiências, suas falhas, suas motivações egoístas. A maioria de nós evita isso antes que qualquer um possa ver. Mas há uma coisa: a parte de você que é a mais escura tem a maior quantidade de coisas para lhe ensinar sobre seu propósito. Se descobrir seu propósito é realmente sobre auto-conhecimento, sua escuridão lhe mostra onde você mais precisa crescer. Mais importante ainda, mostra de quem você mais precisa aprender. É das pessoas que você menos gosta que você tem mais a aprender sobre si mesmo. Mas a maioria ignora o lado sombrio. Em vez disso, você busca relacionamentos confortáveis que reforcem as imagens gastas e obsoletas de si mesmo.” (Shelley Prevost)

5. Você ignora a mente inconsciente.

Diz a Shelley:

“No livro “The Social Animal”, David Brooks fala sobre o preconceito de nossa cultura que diz que “a mente consciente escreve a autobiografia da nossa espécie”. Assim como Brooks, acredito que nossa cultura tem um relativo desdém pela mente inconsciente e tudo que ela representa – emoções, intuição, impulsos e sensibilidades. Para descobrir nosso propósito, temos que estar confortáveis com nossa mente não-lógica. Você deve se acostumar em não ter as respostas. Você deve tolerar a ambiguidade e aceitar as lutas. Deve se permitir sentir – profundamente sentir. Planejar intelectualmente seu caminho em direção a uma vida com propósito não funcionará nunca. Mas isso é pedir demais para a maioria das pessoas. Elas vão negar, despistar, ridicularizar ou simplesmente ignorar. E essa é a razão pela qual a maioria de nós viverá sem saber qual o verdadeiro propósito.” (Shelley Prevost)

Parece lógico e sensato que deveríamos ter o controle de tudo (ou da maioria das coisas) e estarmos plenamente conscientes de todos os nossos passos e não sofrermos com fraquezas nem obstáculos. Mas a vida simplesmente não é assim. “Há muito mais coisa entre o céu e a Terra, Horácio, do que imagina vossa vã filosofia”, já dizia Shakespeare. E a mesma coisa vale nosso universo interior. O ser humano é uma manifestação da forças e energias múltiplas, dinâmicas e inteligentes, e reconhecer e viver isso é apenas um dos passos no caminho do auto-conhecimento e do próprio propósito. Não é a toa que várias técnicas terapêuticas levam em conta todo esse compêndio que a vida humana expressa, e é assim que entendem e curam e integram o ser em si mesmo.


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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Estação das perdas!

::Desconheço Autoria::



Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio...
Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido.
Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do ser humano.
Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero.
Estamos, a partir de então, por nossa conta, sozinhos.
Começamos a vida em perda e nela continuamos.
Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo.
Ele nos acolhe, nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói...
E continuamos a perder...e seguimos a ganhar.
Perdemos primeiro a inocência da infância.
A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta
sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair...
E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar.
Por quê? Perguntamos a todos e de tudo...
Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás... Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer,
envelhecer, morrer, renascer (?)...

Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros.
Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo
nos é tomado contra a vontade.
Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres.
Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso.
Receamos dar risadas escandalosamente da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da vó (o que deveria ser feito com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto).
Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros.
E aprendemos...
E vamos adolescendo... ganhamos peso, ganhamos pêlos, ganhamos altura... ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em grande conflito.
Sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo.
Aí de repente, caímos na real!
Estamos amadurecendo...todos nos admiram.
Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados.
Perdemos a espontaneidade.
Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo.
Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima dos outros animais?
A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico
e racionalmente planejado?
E continuamos amadurecendo....ganhamos um carro novo, um(a) companheiro(a),
ganhamos um diploma.
E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos.
Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado...mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade...

E assim, vamos ganhando tempo....enquanto envelhecemos.
De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas
(ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso...e perdemos cabelos.
Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir...perdemos a esperança.
Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo...afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede...
Que a gente cresça e não envelheça simplesmente...
Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie...
Que tenhamos rugas e boas lembranças...
Que tenhamos juízo mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia...
Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos...
E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam...
"CORAGEM NÃO É DEIXAR DE ARRISCAR...

mas:

ARRISCAR MESMO COM MEDO”


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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Dia de Faxina

::Desconheço autoria::




Estava precisando fazer uma faxina em mim... Jogar alguns pensamentos indesejados para fora, lavar alguns tesouros que andavam meio enferrujados...

Tirei do fundo das gavetas lembranças que não uso e não quero mais.

Joguei fora alguns sonhos, algumas ilusões... Papéis de presente que nunca usei, sorrisos que nunca darei; Joguei fora a raiva e o rancor das flores murchas que estavam dentro de um livro que não li. Olhei para meus sorrisos futuros e minhas alegrias pretendidas... E as coloquei num cantinho, bem arrumadas.

Fiquei sem paciência!... Tirei tudo de dentro do armário e fui jogando no chão: Paixões escondidas, desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca queria ter dito, mágoas de um amigo, lembranças de um dia triste... Mas lá também havia outras coisas... e belas!

Um passarinho cantando na minha janela... aquela lua cor-de-prata, o pôr do sol!... Fui me encantando e me distraindo, olhando para cada uma daquelas lembranças. Sentei no chão, para poder fazer minhas escolhas.

Joguei direto no saco de lixo os restos de um amor que me magoou. Peguei aspalavras de raiva e de dor que estavam na prateleira de cima, pois quase não as uso, e também joguei fora no mesmo instante!

Outras coisas que ainda me magoam, coloquei num canto para depois ver o que farei com elas, se as esqueço lá mesmo ou se mando para o lixão.

Aí, fui naquele cantinho, naquela gaveta que a gente guarda tudo o que é mais importante: o amor, a alegria, os sorrisos, um dedinho de fé para os momentos que mais precisamos... como foi bom relembrar tudo aquilo!

Recolhi com carinho o amor encontrado, dobrei direitinho os desejos, coloquei perfume na esperança, passei um paninho na prateleira das minhas metas, deixei-as à mostra, para não perdê-las de vista.

Coloquei nas prateleiras de baixo algumas lembranças da infância, na gaveta de cima as da minha juventude e, pendurada bem à minha frente, coloquei a minha capacidade de amar... e de recomeçar...


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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A quinta ordem da ajuda

::Bert Hellinger::




A quinta ordem da ajuda

O trabalho da constelação familiar aproxima o que antes estava separado. Nesse sentido, ele está a serviço da reconciliação, sobretudo com os pais. O que impede essa reconciliação é a distinção entre bons e maus membros da família, tal como é feita por muitos ajudantes, sob o influxo de sua consciência e de uma opinião pública presa nos limites dessa consciência. Por exemplo, quando um cliente se queixa de seus pais, das circunstâncias de sua vida ou de seu destino, e quando um ajudante se associa à visão desse cliente, ele serve mais ao conflito e à separação do que à reconciliação. Portanto, alguém só pode ajudar, no sentido da reconciliação, quando imediatamente dá um lugar em sua alma à pessoa de quem o cliente se queixa. Assim, o ajudante antecipa na própria alma o que o cliente ainda precisa realizar na sua.

A quinta ordem da ajuda é portanto o amor a cada pessoa como ela é, por mais que ela seja diferente de mim. Dessa maneira, o ajudante abre a essa pessoa o seu coração, de modo que ela se torna parte dele. Aquilo que se reconciliou em seu coração também pode reconciliar-se no sistema do cliente. A desordem da ajuda seria aqui o julgamento sobre outros, que geralmente é uma condenação, e a indignação moral associada a isso. Quem realmente ajuda, não julga.

A percepção especial

Para poder agir de acordo com as ordens da ajuda, não é preciso qualquer percepção especial. O que eu disse aqui sobre as ordens da ajuda não deve ser aplicado de forma precisa e metódica. Quem tentar isso estará pensando, ao invés de perceber. Ele reflete e recorre a experiências anteriores, em vez de se expor á situação como um todo e apreender dela o essencial. Por isso, essa percepção envolve ambos os aspectos: ela é simultaneamente direcionada e reservada. Nessa percepção, eu me direciono a uma pessoa, porém sem querer algo determinado, a não ser percebê-la interiormente, de uma forma abrangente, e com vistas ao próximo ato que se fizer necessário.

Essa percepção surge do centramento. Nela, eu abandono o nível das ponderações, dos propósitos, das distinções e dos medos, e me abro para algo que me move imediatamente, a partir do interior. Aquele que, como representante numa constelação, já se entregou aos movimentos da alma e foi dirigido e impelido por eles de uma forma totalmente surpreendente, sabe de que estou falando. Ele percebe algo que, para além de suas idéias habituais, o torna capaz de ter movimentos precisos, imagens internas, vozes interiores e sensações inabituais.

Esses movimentos o dirigem, por assim dizer, de fora, e simultaneamente de dentro. Perceber e agir acontecem aqui em conjunto. Essa percepção é, portanto, menos receptiva e reprodutiva. Ela é produtiva; leva à ação, e se amplia e aprofunda no agir.

A ajuda que decorre dessa percepção é geralmente de curta duração. Ela fica no essencial, mostra o próximo passo a fazer, retira-se rapidamente e despede o outro imediatamente em sua liberdade. É uma ajuda de passagem. Há um encontro, uma indicação, e cada um volta a trilhar o próprio caminho. Essa percepção reconhece quando a ajuda é conveniente e quando seria antes danosa. Reconhece quando a ajuda coloca tutela ao invés de promover, e quando serve para remediar antes a própria necessidade do que a do outro. E ela é modesta.

Observação, percepção, compreensão, intuição, sintonia

Talvez seja útil descrever aqui ainda as diferentes formas de conhecimento, para que, quando ajudamos, possamos recorrer ao maior número delas que for possível, e escolher entre elas. Começo pela observação.

A observação é aguda e precisa, e tem em vista os detalhes. Como é tão exata, é também limitada. Escapa-lhe o entorno, tanto o mais próximo quando o mais distante. Pelo fato de ser tão exata, ela é próxima, incisiva, invasiva e, de certa maneira, impiedosa e agressiva. Ela é condição para a ciência exata e para a técnica moderna decorrente dela.

A percepção é distanciada. Ela precisa da distância. Ela percebe simultaneamente várias coisas, olha em conjunto, ganha uma impressão do todo, vê os detalhes em seu entorno e em seu lugar. Contudo, é imprecisa no que toca aos detalhes. Este é um dos lados da percepção. O outro lado é que ela entende o observado e o percebido. Ela entende o significado de uma coisa ou de um processo observação e percebido. Ela vê, por assim dizer, por trás do observado e do percebido, entende o seu sentido. Acrescenta, portanto, à observação e à percepção externa uma compreensão.

A compreensão pressupõe observação e percepção. Sem observação e percepção, também não existe compreensão. E vice-versa: sem compreensão, o observado e percebido permanece sem relação. Observação, percepção e compreensão compõem um todo. Somente quando atuam em conjunto é que percebemos de uma forma que nos permite agir de forma significativa e, principalmente, também ajudar de uma forma significativa.

Na execução e na ação, freqüentemente aparece ainda um quarto elemento: a intuição. Ela tem afinidade com a compreensão, assemelha-se a ela, mas não é a mesma coisa. A intuição é a compreensão súbita do próximo passo a dar. A compreensão é muitas vezes geral, entende todo o contexto e todo o processo. A intuição, em contraposição, reconhece o próximo passo e, por isso, é exata. Portanto, a relação entre a intuição e a compreensão é semelhante à relação entre a observação e a percepção.

Sintonia é uma percepção a partir do interior, num sentido amplo. Como a intuição, ela também se direciona para a ação, principalmente para a ação de ajuda. A sintonia exige que eu entre na mesma vibração do outro, alcance a mesma faixa de onda, sintonize com ele e o entenda assim. Para entendê-lo, também preciso ficar em sintonia com sua origem, principalmente com seus pais, mas também com seu destino, suas possibilidades, seus limites, e também com as conseqüências de seu comportamento e de sua culpa; e, finalmente, com sua morte.

Ficando em sintonia, eu me despeço, portanto, de minhas intenções, de meu juízo, de meu superego e de suas exigências sobre o que eu devo e preciso ser. Isso quer dizer: fico em sintonia comigo mesmo, da mesma forma que com o outro. Dessa maneira, o outro também pode ficar em sintonia comigo, sem se perder, sem precisar temer-me. Da mesma forma, também posso ficar em sintonia com ele permanecendo em mim mesmo. Não me entrego a ele, mas mantenho distancia na sintonia. Com isso, ao ajudá-lo, posso perceber exatamente o que posso fazer e o que tenho o direito de fazer. Por esta razão, a sintonia é também passageira. Ela dura apenas enquanto dura a ação da ajuda. Depois, cada um volta à sua própria vibração. Por esta razão, não existe na sintonia transferencia nem contratransferência, nem a chamada relação terapêutica. Portanto, um não assume a responsabilidade pelo outro. Cada um permanece livre do outro.


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quarta-feira, 30 de julho de 2014

A terceira e a quarta ordem da ajuda

::Bert Hellinger::




A terceira ordem da ajuda

Muitos ajudantes, por exemplo, na psicoterapia e no trabalho social, acham que precisam ajudar os que lhes pedem ajuda, da mesma forma como os pais ajudam seus filhos pequenos. Inversamente, muitos que buscam ajuda esperam que os ajudantes se dediquem a eles como os pais se dedicam a seus filhos, no intuito de receber deles, tardiamente, o que esperam e exigem dos próprios pais.

O que acontece quando os ajudantes correspondem a essas expectativas? Eles se envolvem numa longa relação. Aonde leva essa relação? Os ajudantes ficam na mesma situação dos pais, em cujo lugar se colocaram com essa vontade de ajudar.

Passo a passo, eles precisam impor limites aos que buscam ajuda, decepcionando-os. Então estes desenvolvem freqüentemente, em relação aos ajudantes, os mesmos sentimentos que tinham antes em relação a seus pais. Assim, os ajudantes que se colocaram no lugar dos pais, querendo mesmo, talvez, ser pais melhores, tornam-se, para os clientes, iguais aos pais deles. Porém muitos ajudantes permanecem presos na transferência e na contratransferência da relação entre filho e pais. Com isso, dificultam ao cliente a despedida, tanto de seus pais quanto dos próprios ajudantes. Ao mesmo tempo, uma relação segundo o modelo da transferência entre pais e filhos impede também o desenvolvimento pessoal e o amadurecimento do ajudante.

Vou ilustrar isso com um exemplo:

Quando um homem jovem se casa com uma mulher mais velha, ocorre a muitos a imagem de que ele procura um substitutivo para sua mãe. E o que procura ela? Um substitutivo para seu pai. Inversamente, quando um homem mais velho se casa com uma moça mais jovem, muitos dizem que ela procurou um pai. E ele? Procurou uma substituta para sua mãe. Assim, por estranho que soe, quem se obstina por muito tempo numa posição superior e mesmo a procura e quer manter, recusa-se a assumir seu lugar entre adultos equiparados.

Existem, porém, situações, em que convém que, por algum tempo, o ajudante represente os pais: por exemplo, quando um movimento amoroso precocemente interrompido precisa ser levado a seu termo. Contudo, diferentemente da transferência da relação entre pais e filhos, o ajudante apenas representa aqui os pais reais. Ele não se coloca em lugar deles, como se fosse uma mãe melhor ou um pai melhor. Por esta razão, também não é preciso que o cliente se desprenda do ajudante, pois este o leva a afastar-se dele e a voltar-se para os próprios pais. Então o ajudante e cliente se liberam mutuamente.

Mediante a adoção desse padrão de sintonia com os pais verdadeiros, o ajudante frustra, desde o início, a transferência da relação entre os pais e o filho. Pois, quando respeita em seu coração os pais do cliente, e fica em sintonia com esses pais e seus destinos, o cliente encontra nele os seus pais, dos quais já não pode esquivar-se. A mesma coisa vale quando o ajudante precisa lidar com crianças ou deficientes físicos. Na medida em que ele apenas representa os pais, e não se coloca em seu lugar, os clientes podem sentir-se em segurança com ele.

A terceira ordem da ajuda seria, portanto, que, diante de um adulto que procura ajuda, o ajudante se coloque igualmente como um adulto. Com isso, ele recusa as tentativas do cliente para fazê-lo assumir o papel dos pais. É compreensível que essa atitude do ajudante seja sentida e criticada, por muitas pessoas, como dureza. Paradoxalmente, essa “dureza” é criticada por muitos como arrogância. Quem olha bem, vê que a arrogância consistiria antes no envolvimento do ajudante numa transferência da relação entre pais e filho.

A desordem da ajuda consiste aqui em permitir a um adulto que faça ao ajudante as exigências de um filho a seus pais, para que o trate como criança e o poupe de algo pelo qual somente o cliente pode e deve carregar a responsabilidade e as conseqüências. É o reconhecimento dessa terceira ordem da ajuda que constitui a mais profunda diferença entre o trabalho das constelações familiares e psicoterapia habitual.

A quarta ordem da ajuda

Sob a influência da psicoterapia clássica, muitos ajudantes freqüentemente encaram seu cliente como um indivíduo isolado. Com isso, também se expõem facilmente ao risco de assumirem a transferência da relação entre pais e filho. Contudo, o indivíduo é parte de uma família. Somente quando o ajudante o percebe assim é que ele percebe de quem o cliente precisa, e a quem ele possivelmente está devendo algo.

O ajudante realmente percebe o cliente a partir do momento em que o vê junto com seus pais e antepassados, e talvez também junto com seu parceiro e com seus filhos. Então ele percebe quem, nessa família, precisa principalmente de sua atenção e de sua ajuda, e a quem o cliente precisa dirigir-se para reconhecer os passos decisivos e levá-los a termo. Isto significa que a empatia do ajudante precisa ser menos pessoal e – principalmente - mais sistêmica. Ele não se envolve num relacionamento pessoal com o cliente. Esta é a quarta ordem da ajuda.

A desordem da ajuda, neste caso, consistiria em não contemplar nem honrar outras pessoas essenciais, que teriam em suas mãos, por assim dizer, a chave da solução. Incluem-se entre elas, sobretudo, aquelas que foram excluídas da família, por exemplo, porque os outros se envergonharam delas.

Também aqui é grande o perigo de que essa empatia sistêmica seja sentida como dureza pelo cliente, sobretudo por aqueles que fazem reivindicações infantis ao ajudante. Pelo contrário, aquele que busca a solução, de maneira adulta, sente esse enfoque sistêmico como uma liberação e uma fonte de força.


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terça-feira, 29 de julho de 2014

A primeira e a segunda ordem da ajuda

::Bert Hellinger::




A primeira ordem da ajuda

A primeira ordem da ajuda consiste, portanto, em dar apenas o que temos, e em esperar e tomar somente aquilo de que necessitamos. A primeira desordem da ajuda começa quando uma pessoa quer dar o que não tem, e a outra quer tomar algo de que não precisa; ou quando uma espera e exige da outra algo que ela não pode dar, porque não tem. Há desordem também quando uma pessoa não tem o direito de dar algo, porque com isso tiraria da outra pessoa algo que somente ela pode ou deve carregar, ou que somente ela tem a capacidade e o direito de fazer. Assim, o dar e o tomar estão sujeitos a limites, e pertence à arte da ajuda percebê-los e respeitá-los.

Essa ajuda é humilde, e muitas vezes, em face da expectativa e da dor, ela renuncia a agir. O trabalho com as constelações familiares coloca diante de nossos olhos o que deve exigir quem ajuda, tanto de si mesmo quanto da pessoa que busca ajuda. Essa humildade e essa renúncia contradizem muitas concepções usuais sobre a correta maneira de ajudar, e freqüentemente expõem o ajudante a graves acusações e ataques.

A segunda ordem da ajuda

A ajuda está a serviço da sobrevivência, por um lado, e da evolução e do crescimento, por outro. Todavia, a sobrevivência, a evolução e o crescimento também dependem de circunstâncias especiais, tanto externas quanto internas. Muitas circunstâncias externas são preestabelecidas e não são modificáveis: por exemplo, uma doença hereditária, as conseqüências de acontecimentos ou de uma culpa. Quando a ajuda deixa de considerar as circunstâncias externas ou se recusa a admiti-las, ela se condena ao fracasso. Isto vale, com maior razão, para as circunstâncias internas. Elas incluem a missão pessoal particular, o envolvimento nos destinos de outros membros da família, e o amor cego que, sob o influxo da consciência, permanece vinculado ao pensamento mágico. O que isso significa em casos particulares eu expus exaustivamente em meu livro “ Ordens do Amor”, no capítulo “Do céu que faz adoecer, e da terra que cura”.

Para muitos ajudantes, o destino da outra pessoa pode parecer difícil, e gostariam de modificá-lo; não, porém, muitas vezes, porque o outro o necessite ou deseje, mas porque os próprios ajudantes dificilmente suportam esse destino. E quando o outro, não obstante, se deixa ajudar por eles, não é tanto porque precise disso, mas porque deseja ajudar o ajudante. Então, quem ajuda realmente está tomando, e quem recebe a ajuda se transforma em doador.

A segunda ordem da ajuda é, portanto, que ela se amolde às circunstancias e só intervenha com apoio na medida em que elas o permitem. Essa ajuda mantém reserva e possui força. Há desordem da ajuda, neste caso, quando o ajudante nega as circunstâncias ou as encobre, ao invés de encará-las, juntamente com a pessoa que busca a ajuda. Querer ajudar contra as circunstâncias enfraquece tanto o ajudante quanto a pessoa que espera ajuda ou a quem ela é oferecida ou mesmo imposta.

O protótipo da ajuda

O protótipo da ajuda é a relação entre pais e filhos e, principalmente, a relação entre a mãe e o filho. Os pais dão, os filhos tomam. Os pais são grandes, superiores e ricos, ao passo que os filhos são pequenos, necessitados e pobres. Contudo, porque os pais e os filhos são ligados entre si por um profundo amor, o dar e o tomar entre eles pode ser quase ilimitado. Os filhos podem esperar quase tudo de seus pais. E os pais estão dispostos a dar quase tudo a seus filhos. Na relação entre pais e filhos, as expectativas dos filhos e a disposição dos pais para atendê-las são necessárias; portanto, estão em ordem.

Contudo, elas só estão em ordem enquanto os filhos ainda são pequenos. Com o avançar da idade, os pais vão impondo aos filhos, em escala crescente, limites com os quais eles eventualmente se atritam e podem amadurecer. Estarão sendo os pais, nesse caso, menos bondosos para com seus filhos? Seriam pais melhores se não colocassem limites? Ou, pelo contrário, eles se manifestam como bons pais justamente ao exigirem de seus filhos algo que também os prepara para uma vida de adultos? Muitos filhos ficam então com raiva de seus pais, porque preferem manter a dependência original. Contudo, justamente porque os pais se retraem e desiludem essas expectativas, eles ajudam seus filhos a se livrarem dessa dependência e, passo a passo, a agirem por própria responsabilidade. Só assim os filhos tomam o seu lugar no mundo dos adultos e se transformam de tomadores em doadores.


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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ajuda como compensação!

Olá pessoal!

Durante a semana passada estive fora e acabei me dando umas férias das redes sociais, inclusive do Blog e dos emails que recebo aqui!
Agora, abrindo emails, percebi o quanto as pessoas precisam de ajuda. É claro que, como psicóloga, encontro várias pessoas que precisam de ajuda o dia todo. Então você pode me perguntar: "Como assim? Você percebeu isso só agora?"
Não! Não percebi só agora! O que eu percebi foi o quanto precisamos SABER como pedir ajuda e também SABER como ajudar.
Resolvi, a partir disso, partilhar com vocês um texto excelente do Bert Hellinger que nos ensina a ajudar e ser ajudados, além disso ele também nos mostra o que há por traz da nossa necessidade de ajudar ou de receber ajuda.
Como é um texto grande, partilharei por etapas. Amanhã volto aqui para postar a segunda parte.

Um grande abraço a todos e uma ótima leitura!😘




::Bert Hellinger::

A ajuda é uma arte. Como toda arte, envolve uma capacidade que pode ser aprendida e praticada. E envolve empatia em relação ao objeto, a saber, a compreensão do que corresponde a esse objeto e, simultaneamente, daquilo que o eleva, por assim dizer, acima de si mesmo, em algo mais abrangente.

Ajuda como compensação

Nós, seres humanos, dependemos, sob todos os aspectos, da ajuda dos outros, como condição de nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo, precisamos também de ajudar outras pessoas. Aquele de quem não se necessita, aquele que não pode ajudar outros, fica só e se atrofia. O ato de ajudar serve, portanto, não apenas aos outros, mas também a nós mesmos. Via de regra, a ajuda é um processo recíproco, por exemplo, entre parceiros. Ela se ordena pela necessidade de compensar. Quem recebeu de outros o que deseja e precisa, também quer dar algo, por sua vez, compensando a ajuda.

Muitas vezes, a compensação que podemos fazer através da retribuição é limitada. Isso ocorre, por exemplo, em relação a nossos pais. O que eles nos deram é excessivamente grande, para que o possamos compensar dando-lhes algo em troca. Só nos resta, em relação a eles, o reconhecimento pelo que nos deram e o agradecimento que vem do coração. A compensação pela doação, com o alívio que dela resulta, só se consegue, nesse caso, repassando essa dádiva a outras pessoas: por exemplo, aos próprios filhos.

Portanto, o processo de tomar e de dar se processa em dois diferentes patamares. O primeiro, que ocorre entre pessoas equiparadas, permanece no mesmo nível e exige reciprocidade. O outro, entre pais e filhos, ou entre pessoas em condição superior e pessoas necessitadas, envolve um desnível. Tomar e dar se assemelham aqui a um rio, que leva adiante o que recebe em si. Essa forma de tomar e dar é maior, e tem em vista também o que virá depois. Nesse modo de ajudar, o que foi doado se expande. Aquele que ajuda é tomado e ligado a uma realização maior, mais rica e mais duradoura.

Esse tipo de ajuda pressupõe que nós próprios tenhamos primeiro recebido e tomado. Pois só então sentimos a necessidade e temos a força para ajudar a outros, especialmente quando essa ajuda exige muito de nós. Ao mesmo tempo, ela parte do pressuposto de que as pessoas a quem queremos ajudar também necessitam e desejam o que podemos e queremos dar a elas. Caso contrário, nossa ajuda se perde no vazio. Então ela separa, ao invés de unir.


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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Você sabe ouvir com o coração?

::Patricia Gebrim::







"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito... " Rubem Alves Ah se eu pudesse voltar atrás o filme da minha vida, quantas coisas faria diferente...

Com a passagem dos anos aprendi que a dor molda a nossa sensibilidade e nos ajuda a perceber um mundo mais sutil, onde cada pequeno ato se torna um diamante cheio de delicadeza.

Quando adoecemos, por exemplo, sentimos o quão importante é o carinho e a presença de um amigo que segure a nossa mão. E então olhamos para trás e nos damos conta de quantas vezes fomos pouco cuidadosos com aqueles a quem amamos, por pura falta de sensibilidade para perceber que podíamos SIM fazer diferença.

Eu queria ter sabido antes o que só estou descobrindo agora.

E queria poder saber agora todas aquelas coisas que só se tornarão claras no futuro.

Hoje li na internet um lindo texto escrito pelo psicanalista Rubem Alves. É incrível como me sinto tocada por esse escritor, não especificamente por seu dom de escrever, se bem que escreva tão divinamente que me deixa quase sem ar. Mas o que me toca fundo é ele ter tanta alma, uma alma que se derrama em meu coração sempre que leio suas palavras.

"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção". Rubem Alves

Rubem, você está certo, hoje em dia é coisa rara encontrar um ouvido que não esteja morto. Quantas vezes falamos com pessoas que se dizem amigas, e após quase uma hora de conversa vamos embora, com o peito sangrando, sem que a outra pessoa tenha sequer percebido aquele líquido vermelho e quente brotando da ferida aberta. Não porque tenhamos escondido nada, mas a pessoa estava tão entretida em olhar para si mesma que nem chegou a nos perceber. E não achem que por estar escrevendo isso eu me coloque do lado de fora dessa horrenda maldição.

Quantas vezes não devo ter passado reto por alguém que estava aos pedaços, sem me dar conta, sem nem mesmo ver? Me dói pensar nisso, e peço perdão a todos a quem eu tenha insensivelmente oferecido minha cegueira. Por mais que fiquemos atentos, vez ou outra somos hipnotizados por essa serpente e ficamos lá, cegos, olhando para nós mesmos, com ouvidos surdos e uma pedra sobre nosso coração.

Não quero viver assim. Repetindo a palavra "eu", como um daqueles discos antigos riscados, que subitamente se tornava um prisioneiro irritante de uma mesma parte da música, tornando feio o que poderia ter sido tão belo.

Será que estamos perdendo a sensibilidade? Virando pedra? Me recuso a escolher essa explicação. Prefiro acreditar que o que antes passava despercebido agora se torna mais e mais visível. Prefiro acreditar que estamos despertando desse estado tão triste, dessa auto-hipnose. Prefiro pensar que, ao nos darmos conta dessa distorção, podemos dar o primeiro passo no sentido de fazer escolhas diferentes. Se enxergarmos agora, se percebermos o quanto temos sido egoístas, talvez possamos economizar muitos anos, coisa preciosa nesses tempos em que os relógios correm enlouquecidos para fora de nosso controle.

Podemos mudar, agora. E de repente o milagre acontece. E é lindo. Olhamos nos olhos do outro e... Existe alguém lá! Olhamos mais de perto e percebemos o quanto aquilo que vemos é belo, e torna-se impossível desviar o olhar. Sentimos que algo bate mais forte em nosso peito. Ganhamos um coração? Sim. Um coração. E é ele quem sabe perguntar:

- Como você está ? Está feliz? Algo anda te fazendo sofrer? Existe beleza na sua vida? Posso fazer algo por você?

Fechem os olhos por um instante e sintam a beleza disso.

Podemos perguntar e, de fato, "ouvir a resposta". E levá-la para dentro de nós, para aquele lugar sagrado ao qual não me canso de referir. E mais. Podemos sentir a alegria do outro, a tristeza do outro, e a dor do outro; e descobrimos que não há diferença entre elas e a nossa própria alegria, e tristeza e dor. E ao aliviarmos um pouco a dor do outro, é o nosso peito que fica instantaneamente mais leve, porque nós e o outro somos um.

"Eu e o outro somos um". É muito especial o momento quando percebemos isso. E é assim que vamos libertando o amor. E sendo amor.

Isso talvez faça parte desse grande e lindo plano do Universo, o plano de nos tornarmos, finalmente, humanos.



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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Controle absoluto da vida?

::Silvana Lance::




É natural querermos estar no controle da vida. Fazemos nossos planos e temos a tendência de acreditar que a vida segue de acordo com eles porque isto nos dá uma sensação de segurança, mas as inquietações estão sempre presentes, e se nos questionarmos no silêncio dos dias e observarmos rotinas aparentemente normais, perceberemos razões que guiam nossas vidas enquanto seguimos pensando que estamos no controle dela! O perceptível às vezes tem um sentido invisível e nem sempre é aquilo que parece ser, sendo assim como podemos ter controle sobre tudo?!

No intento de aplacar nossos medos tendemos a ser autoritários com a vida impondo o domínio absoluto sobre ela, mas quando ela nos coloca diante de situações onde nosso descontrole e impotência ficam evidentes, ficamos estarrecidos, chegamos até mesmo a ficar enfurecidos reagindo com um ataque tal qual crianças mimadas e frustradas diante da decepção por perdermos a direção que ilusoriamente pensávamos possuir! Mas a vida nos mostra, e às vezes até mesmo de uma forma muito dura, que o máximo que podemos de fato controlar é a nós mesmos através de nossos pensamentos e escolhas, e mesmo assim vamos perceber o quanto é fácil perder o controle!

Muitos, tentando se cercarem de garantias tentam impor controle também sobre a vida de outros, pressionam situações e pessoas até mesmo com a intenção de ter a quem culpar quando perdem as rédeas, pois não aceitam que não detêm este poder! Mas diante de todas as incertezas que nos cercam, seria uma atitude egoísta agir com prepotência tentando impor o medo, a superioridade ou até mesmo a manipulação emocional para captarmos uma sensação de segurança através das pessoas!

Se cultivarmos o pensamento de que podemos controlar tudo, ficaremos continuamente cansados e frustrados pois somos surpreendidos freqüentemente por acontecimentos que estão além de nosso controle embora tomemos todas precauções!

Não é tarefa simples exercer a calma quando as coisas não reagem ao nosso controle, pois nos preparamos para viver a vida dentro do que planejamos e repentinamente nos vemos sem direção e atordoados quando ela segue outro rumo! E quando nos deparamos com a possibilidade de ter que desistir de um caminho, ficamos decepcionados e tristes, mesmo quando muitas vezes a palavra certa não seja desistência e sim paciência. Portanto ao invés de pensarmos em fracasso quando nossos planos não atendem ao nosso controle, podemos tentar escutar o que a vida está querendo nos dizer e aprender que ela segue seu rumo mas que nem sempre podemos conduzir ou interferir em seu ritmo!

Precisamos ter em mente que nosso caminho também é influenciado por nosso livre-arbítrio e que em nossas tentativas de acertos cometemos erros que nos atrasam ou nos deviam de nossas metas, portanto, temos que ser tolerantes conosco assumindo também a nossa própria responsabilidade sem ceder ao desânimo, buscando sempre aprender a lição que está contida em cada acontecimento, a qual não tem o intuito de nos castigar mas sim nos fazer crescer e amadurecer.

Se prestarmos atenção, veremos que a maioria de nós tem o suficiente para enfrentar o dia de hoje sem precisar se preocupar com o amanhã, mas freqüentemente nos inquietamos com coisas que provavelmente nunca acontecerão! E quando começamos a pensar muito “e se...” a porta para a ansiedade e a preocupação se abrem, e em algumas pessoas são tão consistentes que podem se transformar em medos que se manifestam justamente por estarem sendo cultivados! E nem mesmo sabemos se o amanhã virá! A única certeza que temos é o do agora! Mas também não podemos adquirir a convicção de que não vale a pena nos esforçarmos para planejar nossas vidas e alcançar nossas metas só porque nos damos conta de que a vida pouco obedece ao nosso controle, temos que nos direcionar e fazer a nossa parte mantendo sob controle nossas expectativas!

É difícil encarar que estamos à mercê dos acontecimentos, chega a ser assustador, por isto a fé em algo superior se torna essencial para que possamos suportar nossa falta de visão, pois acreditando que alguém está no controle e que existe um sentido pra tudo, aplacamos também a nossa ansiedade em querer se antecipar aos acontecimentos.

A cada dia temos que estar atentos às oportunidades e flexíveis às mudanças quando estas se tornam necessárias, enfrentando o desafio de vivermos a plenitude dos momentos sem ficarmos ansiosos procurando a certeza de que o nosso dia seguirá ao pé da letra aquilo que impomos a ele, afinal não podemos julgar acontecimentos quando não temos a visão de um todo! Temos que aprender a aceitar isto para seguir em frente, acreditando sempre que nada acontece por um simples acaso e sim para nos colocar novamente na sintonia da vida e no compasso do universo onde existem leis que não compreendemos.

Vamos viver o dia de hoje, não como se não houvesse o amanhã e sim com o pensamento de que não sabemos se ele virá, mas sempre atentos ao fato de que o nosso amanhã será a herança do nosso hoje. Se fizermos a nossa parte, renasceremos a cada manhã confiantes de que vamos encontrar um mundo um pouco mais justo e feliz, com a consciência de que não precisamos possuir o controle absoluto da vida para poder desfrutá-la no momento em que ela nos brinda: no agora!



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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A sensível diferença entre Amor e Dependência

::Roberto Dantas::





É difícil perceber a diferença entre quando estamos amando e quando estamos dependentes de um relacionamento.

A dependência é um aspecto natural do ser humano que desde o nascimento tem a necessidade de alguém que lhe ofereça tudo o que precisa, não só no aspecto físico: comida, asseio, mas também os estímulos necessários para desenvolver seu psiquismo. A isso chamamos de função materna, não necessariamente exercida por uma mãe, ou mesmo mulher; assim, independendo de sexo esta função pode ser exercida por qualquer indivíduo que esteja mais próximo do bebê. Mas essa dependência que é natural, benéfica e saudável nesta fase da vida, pode se manter e não ser transposta, fazendo com que o indivíduo repita padrões de comportamento por toda a vida.

A dependência é um assunto delicado, pois é difícil perceber a linha tênue que separa o amor da dependência, principalmente quando estamos dentro de um relacionamento. A simbiose que se cria entre dois parceiros, que pode ser benéfica em momentos bons da vida do casal, pode se tornar um martírio quando o relacionamento não mais acrescenta a nenhum dos dois, e pior ainda se estiver estabelecido uma relação de dependência ou co-dependência.

Muitos casais, onde pelo menos um dos parceiros sofre deste mal, têm dificuldades em encarar a separação. Muitas vezes o parceiro dependente usa de chantagens emocionais ameaçando o outro e ameaçando a própria vida para evitar a separação. Frases como "Não posso viver sem você", "Minha vida sem você não tem sentido", são muito bonitas em poesias e nas telas de Hollywood, mas em alguns casos pode ser muito preocupante na vida real quando vinda de um dependente emocional.

Esta dependência já se evidencia em muitos casos durante o namoro. Ao primeiro sinal de término, o indivíduo dependente já muda totalmente, perde o equilíbrio, vai parar num leito de hospital, e a outra pessoa acaba caindo na isca da chantagem emocional do dependente, muitas vezes confusa em seus sentimentos. Muito comum nesta situação, é o outro confundir pena com amor e acabar voltando atrás na atitude que tomara em separar ou terminar o relacionamento com o dependente.

Daí pra frente será uma vida de repetições desse padrão de vitimismo do dependente, ameaças, confusões, e muitas vezes o parceiro(a) acaba por acreditar que é seu carma passar por esta situação, que precisa resgatar alguma coisa de vidas passadas com o dependente e perpetua a dinâmica pra vida toda, vivendo infeliz e preso(a) ao dependente, simplesmente por culpa e por não ter consciência de seu papel nesta dinâmica.

Dependência tem cura? Cada caso é único assim como somos nós seres humanos. Um trabalho terapêutico profundo e consistente, agindo na reelaboração do inconsciente deste indivíduo para que haja mudanças "de dentro pra fora", pode ajuda-lo a mudar padrões internos e a viver de forma saudável e desapegada, um relacionamento saudável e feliz a dois.


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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Receptividade

:: Elisabeth Cavalcante ::





Ser receptivo é a qualidade que nos torna aptos a receber todas as dádivas que a vida quiser nos enviar.

Passamos muito de nosso tempo reclamando por aquilo que nos falta ou que julgamos não estar recebendo. Porém, para que possamos alcançar a realização de nossos desejos mais profundos, precisamos estar verdadeiramente abertos e receptivos àquilo que buscamos.

Um exemplo comum é o da relação amorosa. A maioria de nós se queixa de que não consegue encontrar o amor que tanto procura. Entretanto, se fizerem uma análise profunda de suas atitudes, muitas pessoas chegarão à conclusão de que não estão de fato abertas para um novo relacionamento. Esperam por ele cheias de medo e resistências, temendo que se repitam as decepções já sofridas.

Receptividade possui um sentido muito amplo e profundo. Requer que nos libertemos de todas as crenças, amarras, medos, resistências, ilusões e pré-julgamentos, e que nos mantenhamos abertos de fato, ao novo, ao inesperado, ao inusitado.

Saber receber é algo tão importante quanto possuir a capacidade de doar-se. Muitos se doam sem reservas, mas possuem uma incapacidade de receber, por considerarem-se pouco merecedores de atenção e cuidado. Uma baixa auto-estima e uma autoconfiança frágil estão geralmente por trás desta atitude.

Há ainda os que preferem doar-se infinitamente para, desse modo, garantir o afeto e a permanência do outro ao seu lado, ainda que este se mostre egoísta e incapaz de retribuir o amor que recebe.

A energia da receptividade está relacionada à energia yin, o nosso lado feminino, intuitivo e cooperativo. Ela é fundamental para que possamos receber prazerosamente aquilo que a vida nos envia, e para que sejamos capazes de gerar novos frutos com as sementes que são colocadas a cada dia em nosso caminho. Mesmo que não seja exatamente o que pedimos, ou que não venha da forma como pedimos.

Se nos mantivermos receptivos, ao invés de amargos e ressentidos por aquilo que nos falta, estaremos ampliando as possibilidades de alcançar o que tanto buscamos. A vida sempre premia generosamente aquele que se abre sem qualquer reserva para receber suas dádivas.


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